Nota de denúncia da comunidade Pataxó Hã-Hã-Hãe…

abril 22, 2012 em Acompanhe

Fonte: Itapetinga 40 Graus

Nota de denúncia da comunidade Pataxó Hã-Hã-Hãe contra as polícias Federal, Militar, Civil e fazendeiros

A comunidade indígena Pataxó Hã-Hã-Hãe, reunida na sede do Posto Indígena Caramuru Catarina Paraguaçu decidiu denunciar, mediante esta nota, as ações que parecem orquestradas entre os fazendeiros da região do Rio Pardo, seus pistoleiros e as polícias Federal, Civil e Militar.

No último dia 20 de abril fomos atacados e escorraçados de algumas das áreas de nossas terras retomadas na região do Rio Pardo por homens fortemente armados, que portavam, inclusive, fuzis. Os fazendeiros dessa região vinham anunciando, publicamente, que nos iriam atacar com todas as suas forças, e para isso estavam reunindo pistoleiros em todo o sul da Bahia. Nossa comunidade tem denunciado esses fazendeiros, suas ameaças e seus ataques desde que iniciamos nossas retomadas. As polícias e demais autoridades estão cientes da nossa situação de risco. Nossos irmãos indígenas estão sendo atacados tanto individualmente quanto em grupos de ocupação por todos esses dias.

Com esta série de ataques que fizeram contra nossa comunidade no dia 20 e a crescente insegurança que estávamos vivendo, solicitamos, mais uma vez, a todos os aliados da nossa causa, que nos ajudassem a garantir a integridade física de nossa comunidade, apoiando nossa reivindicação de policiamento imediato na região. A polícia compareceu no dia 21 de abril, ontem, com agentes e delegados de três polícias: a Federal, a Militar e, estranhamente, a polícia Civil de Itaju do Colônia e Pau Brasil. Acreditando que os policiais estariam ali para nos apoiar em nosso pleito de desarmamento, segurança, garantia de paz e integridade física de nossa comunidade, reunimos mais uma vez as mulheres e crianças, mais alguns homens que haviam sido expulsos de nossas terras na região do Rio Pardo e retornamos estas pessoas para a área.

Estranhamente, assim que as pessoas desciam dos veículos eram revistadas pelos policiais que, tão logo nos revistaram e vasculharam nossos pertences, se evadiram da área e nos deixaram entregues à própria sorte. Ato contínuo, os pistoleiros apareceram em muitos veículos, tais como motocicletas, caminhonetes e carros de passeio, além dos que apareceram à pé, saindo dos pastos, e nos atacaram fortemente. Os funcionários da FUNAI que estavam nos acompanhando nos ajudaram com os veículos da FUNAI e, juntamente com os veículos da própria comunidade, demos fuga para nossas mulheres e crianças e a todos os homens que ainda encontraram espaço nos veículos. Todos os demais tiveram que fugir pelos pastos, correndo para salvar suas vidas, sob uma verdadeira chuva de balas. Os pistoleiros nos perseguiram pelas estradas, em seus veículos, chegando ao absurdo da impressão de que até mesmo os policiais estariam nos escoltando, à frente dos pistoleiros, para fora de nossa terra. As pessoas que ficaram para trás, nos pastos, foram sendo localizadas, por celular, enquanto subiam as serras para nos contatar. Elas foram sendo instruídas a seguir para locais onde fomos podendo resgatá-las. Ainda temos pessoas desaparecidas e sem nos contatar: não sabemos se ainda estão vivas.

Denunciamos as polícias Federal, Militar e Civil, primeiramente por nos terem garantido que das áreas de onde saíram os veículos dos pistoleiros não haveria nenhum homem armado; denunciamos por haverem nos revistado e constatado que não estaríamos em condições de reagir a qualquer ataque; e, finalmente, por terem se evadido do local sem nos socorrer, enquanto estávamos sob forte ataque.

Dado ao absurdo desta situação, solicitamos a todas as entidades que nos apoiam, aos nossos amigos e às pessoas simpatizantes de nossa causa que nos ajudem a divulgar esta denúncia.

Posto Indígena Caramuru Catarina Paraguaçu, 22 de abril de 2012.

A comunidade Pataxó Hã-Hã-Hãe.

Apoiam esta denuncia todos os caciques de nossa comunidade.