Xingu: os inumeros caminhos de um rio
23.04.2011

Cecília Campelo do Amaral Melo * [1]

Para que serve um rio? Para pescar, para banhar, para navegar, para amamentar. Sim, as mulheres indígenas e ribeirinhas costumam levar seus bebês para banhar-se no rio e os alimentam ali mesmo, dentro d'água, onde as crianças flutuam tranquilas abraçadas ao seio materno. Um rio tem muitos "aproveitamentos", muito mais do que geralmente se imagina. É o que ensinam as crianças e populações indígenas que vivem à beira do rio Xingu.

Visitei em novembro de 2009(1) a comunidade ribeirinha Vila da Ressaca e a Terra Indígena Arara, ambas na Volta Grande do Xingu, região que seria a mais atingida no caso da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Se construída, a barragem desviaria o curso do rio Xingu, diminuindo drasticamente sua vazão, o que inviabilizaria as inúmeras relações que os povos que aí vivem mantêm com o rio. Hoje, os usos e sentidos que o Xingu possui para os grupos sociais que dele e com ele vivem são plenamente compatíveis entre si. Uma vez construída a barragem, o único uso possível do rio seria como força motriz para
geração de energia - para quem?

Basicamente para suprir grandes projetos de mineração, siderurgia e demais indústrias eletrointensivas altamente poluentes, que respondem pela maior fatia do consumo energético nacional e pagam as menores tarifas, subsidiadas por nós e nossas contas de luz cada dia mais caras.
Mas qual o sentido, para as comunidades locais e para a sociedade
brasileira como um todo, da produção de energia voltada em grande parte para a indústria siderúrgica e do alumínio? Desejamos com nossos rios alimentar, por exemplo, a demanda do mercado por chapas de aço para a insustentável expansão da frota de automóveis individuais, que vêm tornando insuportável o deslocamento em nossas cidades? Aceitamos que nossas riquezas sejam espoliadas segundo a lógica de uma "acumulação primitiva permanente" geradora de "depredação cultural, desfiliação, degradação ambiental e predação de pessoas e espaços geográficos"(2). Em outras palavras, desejamos crescer a qualquer custo?

A perspectiva da justiça ambiental indaga: e se os processos de tomada de decisão política incorporarem seriamente como critério que não deverá haver impactos desproporcionais de grandes obras sobre grupos sociais vulnerabilizados? E se esses grupos puderem fazer ver e valer seu modo de vida e terem respeitados os muitos aspectos não monetarizáveis de seu mundo? E se os grupos potencialmente atingidos puderem mostrar para a sociedade abrangente todas suas riquezas incomensuráveis em relação às quais o nosso modo de vida - baseado no consumo incessante e no uso predatório dos recursos naturais - é cego? O que há no rio Xingu que não pode ser simplesmente esmagado e transformado em mercadoria? O que é este rio para os povos indígenas e ribeirinhos que ali vivem?

Para se ter uma ideia das riquezas naturais encontradas no Xingu, basta saber que ele sozinho contém mais espécies do que todos os rios da Europa juntos. O conhecimento da vasta - e ainda pouco estudada - biodiversidade local não escapa às crianças que aí vivem: "No rio Xingu nós temos muitos peixes como: o pirarara, o tucunaré, o caratinga, a bicuda, a cachorra, o piau, a matrixã, o tambaqui, o curimatã, muitas arraias de fogo, o pirarucu e também o pacu-folha, o pacu e o tracajá".
A biodiversidade "cultivada" pelos povos que aí vivem também é por elas destacada: "nós plantamos a cana, o cupuaçu, a graviola, a manga, o abacaxi e muitas verduras e frutas. Na roça, que depende das águas do rio, as pessoas vivem muito bem com seu cultivo, o cacau, o arroz, o feijão, o milho, a banana, o açaí, a melancia, o tomate e a laranja também". As crianças assinalam, ainda, a diversidade de espécies animais do Xingu: "Na fauna são bonitos os animais como a arara, o macaco e o periquito, os pássaros voando na água e os peixes pulando de um lado para o outro. E lembrando das caças: o veado, a paca, a cutia, o porcão do mato e a onça, que devem ser preservados."

Os usos do rio para transporte e lazer - que seriam inviabilizados no
caso da construção da barragem e da usina - são também lembrados. Num jogo de palavras perspicaz, o menino Marcos, de 12 anos, nos revela que "no rio Xingu há muitos aproveitamentos", enquanto o Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte suporia a imposição de um único uso do rio, incompatível com os demais: "nele eu tomo banho, pesco, lavo roupa, vou às praias, cachoeiras e ando de barco. Nós podemos viver da pesca e ir à praia domingo comer peixe assado, o nosso grande e famoso cari".

A reação virulenta do governo brasileiro à pertinente decisão da OEA de solicitar a imediata suspensão do licenciamento de Belo Monte, pelo fato das Oitivas Indígenas não terem sido cumpridas, indica uma opção política clara por um desenvolvimentismo predatório, ao custo da supressão da viabilidade dos modos de vida dos povos do Xingu. Ora, o governo não fez oitivas porque, se as fizesse, os indígenas simplesmente não aceitariam a construção da usina. Qual grupo consentiria assinar de bom grado sua sentença de morte? Quem aceitaria deixar de lado um modo de vida autônomo para tornar-se objeto de "medidas mitigatórias" oferecidas por grandes empreiteiras que não conseguem sequer garantir condições dignas de trabalho em um canteiro de obras - vide o caso da Usina de Jirau, em Rondônia? Afirma o indígena José Carlos Arara: "Não queremos ser parasitas dos outros. Não aceitamos medidas mitigatórias.
Queremos continuar a plantar e pescar e manter nossa vida como ela é hoje".

CECÍLIA CAMPELLO DO AMARAL MELLO É ANTROPÓLOGA

NOTAS:

(1): A Relatoria do Direito Humano ao Meio Ambiente/Plataforma DHESCA realizou uma missão para apurar denúncias de violações de direitos humanos durante o processo de licenciamento de Belo Monte. Com apoio do Movimento Xingu Vivo para Sempre, da FASE Amazônia, FAOR e da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, realizou-se uma oficina de produção de textos com as crianças da Escola Municipal Luiz Rebello, Vila da Ressaca, município de Senador José Porfírio. As citações são transcrições literais de trechos de 20 redações escritas por crianças
entre 7 e 14 anos da escola.Agradecemos a todos da escola pelo apoio.

(2): Brandão, Carlos. "Acumulação primitiva permanente e desenvolvimento capitalista no Brasil contemporâneo". In:Almeida et al. "Capitalismo globalizado e recursos territoriais" (Editora Lamparina, 2010, pp. 39-69).

(3): Depoimento retirado do documentário "Povos do Xingu contra a
construção de Belo Monte", do Greenpeace, disponível em
http://www.youtube.com/watch?v=ZmOozYXozb8. __


Links:
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[1] http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/04/23/xingu-os-inumeros-caminhos-de-um-rio-376086.asp

 
 

 

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