Patrimônio Tuxá (Jandair Tuxá)
14.04.2011

Vou contar uma história que diferentemente das outras não irá começar com o "Era uma vez" e para você saber o porquê basta acompanhar essa viagem com o seu coração, e juntos iremos descobrir a verdadeira essência do que é ser índio Tuxá. Você irá descobrir como viver feliz, cultivando o amor, respeitando o próximo como a si mesmo, bem como a vivenciar as coisas do mundo com a força de Tupã.

Meus parentes indígenas ou não,
Como contar essa linda história sem
Estar tomado pela emoção.

Sou do rio, ribeirinho sou Tuxá
E no Rio São Francisco do outro lado de lá
Encontrei o meu lugar, a minha nação Proká

Rua Felipe Camarão, Ilha da Viúva vou recordar
Morada ao pé da serra que os caboclos,
A índia bem pequenininha mandou chamar

A nossa raiz está no Sorobabel, está na arte do rio
Enfrentando cachoeiras, descendo e subindo o rio
És ilha, alimento, paraíso, natureza, encanto e canto do rio

Capitão João Gomes Apax Caramuru é raiz
Manuel de Souza é raiz
O pajé Armando Gomes dos Santos é raiz
Raul Valério é raiz
Manoel Novais é raiz
Manoel Eduardo Cruz “Bidú” é raiz
Vieira é raíz
Os tuxá sabem quem são essas raízes
E por isso nossa árvore tem raiz.

Vivenciamos as frentes pastoris e missionárias
Nossa aldeia surgiu de uma dessas missões
A São João Batista de Rodelas, onde diferentes povos
Deram origem ao povo Tuxá

Karirí, Acará, karuru, Xucuru
E a nossa voz Procá calada pelo chegar
Curraleiros, colonizadores, latifundiários da Casa da Torre, religiosos
Todos passaram por cá e hoje marcas tristes ainda temos que curar

Capitão Francisco Rodelas deu nome ao lugar
Sua bravura e coragem fizeram o povo prosperar
Avisa capitão o dilúvio está chegando
O destino desse povo agora está em pranto

Não vou falar desse fato agora
A vida antes era tão boa que não cabe a tristeza agora
Meu Cari, meu Piau, meu Surubim, minha batata doce
Minha capivara, camaleão, muitas caças
Acompanhadas de contos de diversão

Hoje, com boa parte da fauna e flora destruídas
Digo a você "Progresso"
Você, quase que acaba com a minha vida

Eu tinha a minha roça, a minha cebola e fartura de montão
Tinha canoa, barco a motor, a vela e a remo
Avistava meu serrote encantado ao extremo

Na ilha tinha trabalho, as lendas, e visões
Meu canto tem o Velho Chico, tem o Serrote
Meu São João Batista, por favor, me acode

Protetor dos Tuxá, que faz da nossa cultura
A religião católica e a crença indígena se misturar
Oi cabocla do mato só vem folgar!

O toré e a jurema chamam os encantados
E vamos todos regimar
Vou dançando com meu canto entoando
Meus antepassados escutam meu maracá

Levanta o espírito Tuxá, que a coragem e alegria hão de chegar
É só pisar o Toré com força e animação, para receber a benção
E os males espantar

Minha árvore sagrada é a juremá
Com ela faço o meu ritual, o "particular".
Que é o ponto forte da ciência Tuxá.

O contato com o homem branco
Fez até a nossa igreja se descolar
Se antes era voltada para a nossa aldeia
Agora para os invasores ela está a olhar

De protagonistas a coadjuvantes da história local
Passamos a ficar, e até a minha morada eu a vi inundar
Nosso São João Batista continua a nos olhar
Acompanhando todas as mudanças
Enfrentadas pelos Tuxá

Nossa cultura está cada vez mais forte
Da forma que o mundo está
Tentando nos iludir, mas sabemos ir e voltar

Não importa o meu rosto, minha roupa, o meu cabelo
O que vale é ser para sempre um Tuxá guerreiro

A inundação ocorreu em 1987
Tristeza, desolação e abandono
Tuxá teve que enfrentar

Com lágrimas e sangue derramando
E, no entanto, as águas da Barragem
A nossa cultura não conseguiu inundar

Hoje tem a divisão que nos causa frustração
Tem tuxá em Rodelas, Ibotirama, Banzaê e Inajá
A distância não importa quando sabemos lutar
Lutar por dias melhores e para a união reinar

Depois de mais de 20 anos da mudança para um novo território
No início dificuldades tivemos que enfrentar
Mas para os Tuxá nada é impossível e pode o aterrorizar

Organizar a vida e se adaptar são feitos históricos
Que a sociedade deve olhar com outro olhar
Não ficamos civilizados nem educados da forma deles
Apenas aprendemos o que nos é necessário para não ser inferior a eles

Nesse mundo infestado de injustiças e violências sem fim
O meu "Patrimônio Tuxá" nunca irão destruir

Minha identidade e tradição
Que muitos como uma estaca no peito
Perderam a noção, que o melhor da vida
É ser e lutar pelo que manda o coração

Que bom que moramos juntos
Que bom que estamos na luta com os nossos parentes
Que bom que respeitamos o íntimo do ser humano
Que bom que temos os mais velhos sábios, de conhecimentos sem fim
Que bom que na nossa aldeia tem mulheres guerreiras
Que bom que temos crianças e jovens apaixonados pela nossa cultura

Que bom que temos mostrado para o mundo que os Tuxá
Tem consciência que não há como mudar o início da história
Ou viver sem denunciar as mazelas sofridas pelos indígenas

Nós não podemos mudar o começo Mas o que se tem visto é que os Tuxá estão construindo Um novo fim De realizações, vitórias, sonhos reais, construção coletiva, parcerias, integridade, solidariedade, humanismo, sabedoria, conquistas, respeito e amor a causa Indígena e à nossa mãe terra

Dessa forma nós podemos bater no peito e gritar!!!
"Somos Índios da Tribo Tuxá Nação Proká Pragaga do Arco e Flecha e Maracá Malacutinga Tuá Deus do Ar"


Autor. Jandair Ribeiro de Oliveira - Tuxá
Graduando de Pedagogia da UEFS
Membro do Conselho de Desenvolvimento e Participação das Comunidades
Negras e Indígenas de Feira de Santana-CONDECINI
Secretário Geral do DCE/UEFS
Membro do Núcleo dos Estudantes Indígenas Universitários da Bahia - NEIUB

 
 

 

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