É POSSÍVEL QUE NÃO HAJA ÁGUA EM UMA ALDEIA INDÍGENA?
21.03.2011

Dois Anos Depois, Persiste A Pergunta!

* Por: Marcos Bispo Santos

O texto que segue no terceiro período foi escrito por mim em agosto de 2008. Fiz as devidas correções e atualizações, mas 90% das informações, assim como o descaso, persistem.

Uma Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB) feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000, mostrava que havia 116 municípios em todo o Brasil sem rede geral de abastecimento de água. A maior parte deles situada nas Regiões Norte e Nordeste.

Apesar de ter havido uma redução nestas regiões, do número de municípios sem abastecimento de água, no período entre 1989 e 2000, houve um aumento de seu peso proporcional: passaram de 50% para 56% no Nordeste e de 21,7% para 23,3% na região Norte, indicando que o investimento aí realizado na expansão da rede geral de abastecimento de água não ocorreu na mesma proporção que nas demais regiões.

Faz parte destas estatísticas o meu relato como diretor em um Colégio Estadual Indígena, o Caramuru Paraguaçu, pelo qual faço um desabafo, em repúdio à situação de abandono em que se encontra a comunidade indígena desta região, no atendimento a este direito fundamental para a sobrevivência: ter água tratada e/ou potável.

Encravado no coração da terra aonde Galdino Jesus dos Santos viveu, Pau Brasil, sul da Bahia, a referida unidade de ensino tornou-se estadual em 2000 e teve o nome cadastrado no Censo Escolar como Colégio Estadual da Aldeia Indígena Caramuru Paraguaçu em 2005. Isso porque desde então (2005) passou a abrigar também a modalidade de ensino médio, mesmo permanecendo no mesmo prédio que foi construído tão somente para atender o ensino fundamental. Já foram apresentadas pelos órgãos responsáveis planilhas de ampliação e de nova construção. Mas nada saiu do papel.

Nesta unidade escolar, como em toda a comunidade à qual ele pertence, o abastecimento de água é feito da seguinte forma: para o consumo, um único carro-pipa da Funasa leva diariamente (quando não está quebrado) e por uma extensão de 25 quilômetros, com vários percursos interligados (que podem dobrar os citados 25km), pequenas quantidades que são armazenadas em caixas de PVC, inclusive no Colégio. Para o gasto geral (banho, limpeza doméstica, limpeza da escola etc), dependemos do bombeamento de poços artesianos para dois grandes reservatórios que distam 500 metros da unidade escolar, e destes é feito novo bombeamento para os mais diversos pontos, incluindo residências indígenas e a própria escola. Como ficam muito tempo sem água, algumas vezes alguns moradores invertem a manobra, repetindo o serviço de abastecimento para suas casas, o que aumenta o período de falta d’água no Colégio. Já foram enviados projetos para a Sedes (Secretaria de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza/BA), já recebemos visita de técnicos da Cerb e...
NADA.

São inúmeros os dias em que temos que terminar as aulas mais cedo ou ficar totalmente sem aula, como aconteceu em alguns dias da primeira semana letiva deste ano e nos dois dias após o último feriado de carnaval, porque não tínhamos água nem para fazer a merenda escolar ou mesmo para beber. E o que dizer de uma unidade escolar com mais de 800 estudantes, cadastrados no recém-encerrado Censo Escolar 2011, sem ter água para dar descarga, lavar o pátio, limpar as salas e lavar os pratos?

Temos que tomar duas medidas urgentes: que os estudantes sejam
mobilizados para trazer suas garrafinhas com água nestes períodos de crise (exceção para os que moram próximos ao Colégio, porque também não terão em casa), inclusive propondo que, quem mora em região de mananciais traga vasos maiores, de dois litros – sim, porque ainda existem regiões com rios de água doce, mas distam até 25km da Escola. E a 2ª medida é que se sentem à mesa, urgentemente, caciques, representantes da Educação Estadual da Bahia, da Funai e da Funasa, para que também as aldeias indígenas possam, de fato, ter os mesmos direitos que qualquer cidadão que vive no século 21, em pleno ano de 2011. E com o propício tema da Campanha da Fraternidade de 2011, “Fraternidade e a Vida no Planeta” e o lema, ‘A Criação Geme em Dores de Parto’, nunca é demais lembrar: os indígenas eram auto-suficientes em todos os recursos naturais, inclusive a água, até que chegaram, desmataram, poluíram e após as retomadas (ainda não conluídas) só restaram aos indígenas, os restos, de tudo. Mas ainda é tempo de devolver-lhes, ao menos, A ÁGUA, e manter-lhes a dignidade e a vida.

* Prof. Marcos Bispo Santos é diretor do Colégio Estadual da Aldeia Indígena Caramuru Paraguaçu, em Pau Brasil – BA; Educador na Área deLíngua Portuguesa e Literatura Brasileira da Rede Municipal de Itabuna.
Fones: 73) 8805-9893 / 8177-1734. E-MAIL: educadorpolitico@hotmail.com.

 

 

 

 

 

 

 
 

 

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