Divulgado artigo inicial de estudo sobre indígenas de Piripiri
10.03.2011

Geral
http://www.vejapiripiri.com/geral/divulgado-artigo-inicial-de-estudo-sobre-indigenas-de-piripiri.html


O piripiriense Kleb Leite, acadêmico de Ciências Socias e pesquisador do PIBIC/CNPQ pela Universidade Federal do Piauí - UFPI está desenvolvendo estudo sobre os indígenas de Piripiri. A orientadora da pesquisa é também a piripiriense Francisca Verônica Cavalcante, professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Arqueologia e Coordenadora do Curso de Ciências Sociais da UFPI.

TODO DIA É DIA DE ÍNDIO EM PIRIPIRI?

Em 2006, o IBGE registrou no Piauí, cerca de 2000 remanescentes
indígenas, um número significante deles, habitam a região de Piripiri.
Desde 2003, o governo do estado do Piauí através da Fundação Cultural do Piauí (FUNDAC) tem fomentado discussões sobre os índios piauienses com o objetivo de reconstruir a história dessas populações. Em uma das mídias eletrônicas da cidade de Piripiri, em maio de 2010, encontramos a seguinte notícia: "A Fundação Nacional do Índio publicou o resultado do recente reconhecimento da existência de povos indígenas no estado do Piauí, são eles: índios Itacoatiara, em Piripiri, índios Codó Cabeludo, na região de Pedro II, e o os Cariris, em Queimada Nova. A Coordenação Regional da FUNAI de Fortaleza determinou através da portaria 344 a devida prestação assistencial a comunidades indígenas do Piauí".

Segundo o antropólogo Helder Ferreira, foi registrada a presença de
grupos indígenas na cidade de Piripiri, descendentes dos índios tabajaras da região da Serra da Ibiapaba, na fronteira entre o Piauí e o Ceará. A hipótese é que eles migraram para o Piauí. Trata-se da comunidade tabajara radicada no município. Em 2005, foi fundada a
Associação Itacoatiara e a principal questão destes grupos, enfatiza o professor, é a terra. São em torno de 140 pessoas, mas hoje já há algo em torno 280 pessoas, alguns sobrevivem do artesanato em madeira e fibra. Outros desenvolvem atividades como radialista, pintor, pedreiro.
Participaram de eventos em prol do índio promovidos pela FUNDAC em comemoração ao dia do índio, em 2009 e 2010; foram os vencedores do Prêmio de Culturas Indígenas com o qual compraram um terreno e construíram a sede da Associação Itacoatiara, localizado na cidade de Piripiri. No que se refere à religiosidade do grupo, se auto declara católica, não usa pinturas, nem indumentárias indígenas. No que diz respeito à sexualidade muito pouco deixam transparecer das suas relações, casam-se na igreja católica. Piripiri, nome indígena dado a uma planta que era abundante no bairro Fonte dos Matos, completou seu primeiro centenário na data de 4 de julho de 2010. A presença de nomes indígenas em instituições e famílias chama atenção: o Estádio de Futebol Itacoatiara, o sobrenome Tupinambá, nomes como Guanubi, Guaciara, Potiguara, dentre outros são conhecido e intergeracionais. Existe preconceito étnico na cidade que adotou como sua, a música de um cantor baiano chamado Paulo Diniz que diz: "Eu vim de Piripiri, eu vim de Piripiri... lá não há distinção de cor, lá cada amigo é um irmão...".

Questões tais como o grupo indígena tabajara é reconhecido pelos habitantes da cidade como tal? Migraram do Ceará? Etnia, língua, o que cultivam como tradição, alimentação, religiosidade? Como a população piripiriense pensa este grupo, como este grupo pensa a respeito da sua condição de índio e sobre os outros habitantes da cidade?

Nosso interesse é conhecer mais sobre a cultura piripiriense, particularmente sobre este grupo indígena, sua religiosidade e sua
sexualidade. Esse grupo parece ser diferente do indígena presente no nosso imaginário, sobretudo porque se trata de indígenas que vivem não em aldeias, mas na cidade, mas, nos indagamos se o grupo guarda alguma tradição, ressignifica, lembra, conhece, mistura a cultura dos seus antepassados a cultura urbana em que se encontra inserido. Então, quais são os seus ritos de passagem (ritos de gestação e de nascimento, ritos de iniciação, ritos de casamento, ritos funerários)? Cultuam somente os santos católicos? Existe um feiticeiro entre eles? Sobre a sexualidade também não podemos afirmar categoricamente como o grupo relaciona amor e casamento, como é a questão da proibição do incesto, endogamia,
isogamia?

Na data de 15 de janeiro deste ano realizamos o recolhimento de duas entrevistas com os principais integrantes da tribo Tabajara são eles: o Pagé (senhor Elvídio) e o cacique da tribo (senhor José Guilherme da Silva). O objetivo foi dá início a pesquisa de campo e o principal tema abordado foi a presença ou não de tradições religiosas indígenas nas práticas religiosas atuais da então tribo tabajara.

Segundo os relatos dos entrevistados podemos identificar um possível distanciamento de suas tradições culturais religiosas, eles atribuem tal distanciamento à vivência por muito tempo na cidade, eles afirmam não praticarem os rituais religiosos dos tabajaras, são católicos e são devotos de Nossa Senhora dos Remédios, a padroeira da cidade. Afirmam que a vinda para a cidade se deu em função da busca de sobrevivência, dadas as precárias condições de vida ocasionadas pela seca ocorrida na década de 1940, que atingiu particularmente o estado do Ceará, obrigando-os a desbravar matagais, percorrer um enorme espaço de terra até chegar ao estado do Piauí e se instalarem na cidade de Piripiri e assim se sujeitando, para sua sobrevivência, a trabalhos diversos e diferentes daqueles a que estavam acostumados a desempenhar, para eles, o principal motivo do enfraquecimento cultural de sua etnia. Registradas apenas em suas lembranças as tradições indígenas do passado.

Hoje a associação Itacoatiara é assistida por órgãos governamentais
como: (FUNAI) e (FUNDAC) que contribuem com a educação escolar, através de programas culturais que objetivam resgatar as suas raízes étnicas e também realizam a distribuição de sextas básica, uma vez que a maioria vive em condições econômicas precárias.

A entrevista proporcionou o entrosamento com o grupo indígena piripiriense, viabilizando a possibilidade de construção de uma rede de sociabilidade com o grupo que nos permitirá, com o andamento da pesquisa conhecer as suas maneiras de ser no que diz respeito a sua espiritualidade, as suas visões de mundo, as maneiras como se percebem enquanto grupos, como suprem suas necessidades materiais, o que eles pensam que os outros habitantes da cidade pensam sobre eles e, como lidam com a questão da sexualidade. Enfim, o trabalho feito com o grupo possibilitou-nos adentrar neste universo do "Outro", entendermos um pouco sobre como eles vivem, e podemos afirmar: são indígenas urbanos, economicamente, sobrevivem com dificuldades, como tantos outros piripirienses e parecem ter crenças e sexualidade semelhantes a tantos outros grupos sociais que vivem em cidades interioranas piauienses. Mas, ainda estamos em fase exploratória, iniciando a nossa pesquisa.


Kleb Leite, piripiriense, graduando do curso de Ciências Sociais e pesquisador do PIBIC/CNPQ pela Universidade Federal do Piauí-UFPI.

Francisca Verônica Cavalcante, piripiriense, professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Arqueologia e Coordenadora do Curso de Ciências Sociais da UFPI.


10-03-2011 09:23:42 | 187.41.216.94 | Camila Fábia

Bom demais ter pessoas interessadas em elaborar relatórios sobre os indígenas de Piripiri. Sei que na região do bairro germano e vista
alegre tem muitos deles espalhados sem identidade, onde também perderam seus costumes e se quer sabem da sua história. parabéns pelo empenho.


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Comentários:

From: "José Augusto Laranjeiras Sampaio"
Date: Sun, 13 Mar 2011 08:15:00 -0700

Sobre a matéria que postei, acho importante o interesse local nos grupos indígenas contemporâneos no Piauí, mas me aborrece um tanto ver esses antropologuinhos meia-boca e mal-orientados falando de "perdas culturais" e tentando descobrir exotismos recônditos de sexualidade, alimentação e sei mais lá o que sem se dar conta de que estão diante de uma situação hiper nova e criativa de (re)produção e (re) afirmação de identidade indígena, que é o que importaria
investigar, eu acho...

Abração,

Guga


-----Mensagem original-----
De: teresinha silva
Data: Domingo, 13 de Março de 2011 23:39

Concordo com você larangeiras,no momento para os indigenas do Piaui o importante é exatamente o JEITO DELES SER NA ATUALIDADE, em vista de mais tarde se ajudar revitalizar traços culturais dos mesmos e identidade.

Teka potyguara
Aldeia Mundo novo-Mons-Tabosa


Date: 16 Mar 2011 10:0:52 -0300
From: "José Augusto Laranjeiras Sampaio"

Pois é, Teka!

Os índios do Piauí, o pessoal da Associação Itacoatiara de Piripiri em
especial, têm vivido uma experiência riquíssima e original!...

Eles são originários e herdeiros de uma grande tradição indígena, que é a da região de Viçosa, na Ibiapaba... Mas de um lugar onde hoje infelizmente não há ainda uma movimentação indígena organizada... Foram afirmar essa sua identidade praticamente "no exílio", como trabalhadores urbanos... Desde o começo já fundaram uma associação, já perceberam a importância de dialogar com um antropólogo, o Hélder; poucos anos depois de organizados já ganharam um prêmio Culturas Indígenas... São os principais responsáveis por se saber hoje que no Piauí também há índios... O Piauí que era o último estado brasileiro em que se achava que não havia índios... Já conseguiram uma coordenação local da Funai, com compromissos governamentais diversos... Uma boa visibilidade na mídia local... Atraíram a atenção e a simpatia de outros movimentos sociais... E atraíram por fim a atenção de pesquisadores acadêmicos (que são quase sempre os últimos a chegar nesses contextos...)

Tudo isso é uma história recente de muitos ganhos, muitas conquistas!...
Muitas perspectivas de crescimento do movimento, de alcance de direitos, de produção cultural própria!...

E aí vem esses bobocas formados numa Antropologia já descartada há pelo menos meio século para ficar falando de "perdas culturais" e procurando costumes exóticos sem nenhum sentido na realidade deles hoje!... Acabam assumindo uma visão preconceituosa, inferiorizante desses indígenas... E uma visão que, pelo que eu tenho percebido - ainda que de longe - os outros movimentos sociais de lá não têm, a imprensa local não tem, o governo estadual não tem, os outros indígenas mais próximos como vocês no Ceará não têm... Quem está tendo essa visão preconceituosa e excludente são justamente os pesquisadores acadêmicos!... Uma vergonha para nós...

Abraços,

Guga


-----Mensagem original-----
De: Ronaldo Santiago Lopes
Data: Quarta, 16 de Março de 2011 19:22

Caro Augusto,

Concordo com as suas palavras desde o primeiro e-mail que enviou. Também li com certa estranheza como o rapaz escreveu esse artigo. Acho que a orientadora dele não deve ter lido o texto ou não tem orientado seu
bolsista.

Grande abraço,

Ronaldo Santiago Lopes
Assessor Técnico
Secretaria do Trabalho, Assistência Social e Empreendedorismo - Acaraú/CE
http://tremembedeacarau.blogspot.com

Date: 21 Mar 2011 5:44:35 -0300
From: "José Augusto Laranjeiras Sampaio"

Obrigado pela atenção, Ronaldo,

Fiquei até um tanto preocupado de estar publicamente criticando um
colega ainda estudante, mas acho grave mesmo a permanência, na academia, desse tipo de perspectiva. Pode, sim, ser um caso de orientação desatenta, como você sugere, ou até de desconhecimento mesmo de discussões mais atuais no âmbito dos estudos de etnicidade, em termos mais gerais, ou mesmo sobre os movimentos étnicos indígenas no Nordeste à luz da moderna Antropologia.

Ao chamar a atenção para o caso sei que corro o risco de poder vir a ser taxado de anti-ético, mas também que estou contribuindo para que se corte o mal pela raiz...

Abraços,

Guga SAmpaio
Assessor Antropólogo

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