Um Brasil com Várias Línguas
10/01/2011

O TEMPO, MG

Muito trabalho já foi feito, mas uma opinião entre os especialistas é unânime: ainda falta conhecer a grande diversidade de línguas faladas no país, que convivem lado a lado ou distantes do idioma oficial, o português. A visão, aos poucos, parece ser tornar mais clara. E o Brasil, além de ser multirracial e heterogêneo culturalmente, tem também falantes que se diferenciam bastante entre si. Para diminuir a especulação sobre a diversidade linguística nacional e se tornar mais nítida a realidade sobre esse contexto, um projeto - aprovado em dezembro pelo ex-presidente Lula - começa a ser colocado em prática.
Trata-se do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), que tem uma missão proporcional ao tamanho do território brasileiro.

''O desafio é enorme. Hoje, os próprios linguistas que atuam no país não têm o mapa dessa diversidade linguística. Eles não sabem quais línguas merecem uma intervenção mais rápida, em razão de sua fragilidade'', observa Ana Gita de Oliveira, gerente de identificação do Departamento de Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Responsável por administrar a execução do trabalho, que envolve diversas outras instituições - como universidades, institutos, ministérios do governo e até a Unesco -, o Iphan tem também o papel de orientar as pesquisas, como já vinha acontecendo desde 2009. Naquele ano, foi dada a largada para a execução de oito projetos-piloto que tinham como objetivo iniciar o processo de identificação de expressões linguísticas em diferentes comunidades. Estudiosos ligados a universidades e institutos de pesquisa encaminharam propostas cuja a finalidade, entre outras, era contribuir para a formação de uma metodologia que servirá de base para o INDL. A ação mobiliza esforços de pessoas de várias partes. Em especial, linguistas das principais universidades do país.

''Eles ficaram visivelmente interessados em desenvolver uma metodologia que tem como finalidade um diagnóstico capaz de propiciar o desenvolvimento de políticas públicas para a preservação. Outra característica considerada é a chance de, pela primeira vez, conhecermos comunidades linguísticas até então ignoradas '', diz Ana Gita.

O trabalho do INDL será constituído de duas etapas. Em um primeiro momento, será estabelecida uma proposta de mapeamento do universo das comunidades linguísticas do Brasil, realizando uma descrição das condições que elas estão; da sua história, para que isso resulte em políticas públicas de planejamento e implantação.

''Conhecendo a situação dessas comunidades, torna-se mais fácil
perceber quais delas estão correndo risco de desaparecimento ou não. A partir disso, é possível estimular a realização de tarefas que vão dar continuidade à documentação da cultura ali presente. E os habitantes daquele lugar vão ser orientados para dar continuidade a esse trabalho, a fim de que eles mesmos consigam dar conta desses procedimentos no futuro '', complementa Ana.

A metodologia empregada em cada grupo, lembra a gerente de identificação do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan, foi individual. Mas o desdobramento das discussões geradas nos dois anos de pesquisa não se restringe às necessidades apenas de comunidades indígenas, por exemplo, e pretende ser expandida para os demais núcleos do país que demandam estudos e documentação.

Panorama

Hoje, no Brasil, são faladas cerca de 210 línguas. Deste total, 170 são praticadas por indígenas de diferentes comunidades. Outras 30 são variantes faladas por descendentes de imigrantes. Há ainda, pelo menos, duas línguas de sinais de comunidades surdas, como as variantes praticadas no Nordeste; além de línguas crioulas e expressões linguísticas diferenciadas nas comunidades de origem quilombola. Algumas já foram reconhecidas, mas outras ainda carecem de uma melhor identificação.

Trabalhos

Expressões de Norte a Sul mereceram atenção

Os projetos-piloto realizados, a partir de 2009, debruçaram-se sobre comunidades localizadas em todas as regiões do país. A ideia é que cada grupo analisado fosse representativo das condições que poderiam ser estendidas para muitos outros. Dessa forma, foi elaborado um levantamento da natureza linguística e cultural, configurando a abordagem sociolinguística utilizado pela maioria. Fizeram parte do estudo as comunidades indígenas Nahukwa e Matipu do Alto-Xingu; grupos de surdos de João Pessoa (PB) e Recife (PE), que se comunicam com a língua brasileira de sinais (libras) de maneira peculiar, como se tivessem sofrido a influência do sotaque da região. Houve também um trabalho de registro da língua asuriní, praticada por índios do Tocantins, dentre outros.

''Desde 1997, nós já havíamos feito um trabalho com a língua dos
asuriní. E mantemos uma relação, não só do registro da língua, com a produção dos dicionários, mas também com a parte de criação de materiais para a escola asuriní. Assim, é possível ensinar a língua que sofreu muitos impactos, desde o contato que eles sofreram a partir dos anos 50'', completa Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, coordenadora do projeto.
(CAS)

Línguas

Os idosos são as principais fontes de conhecimento

Em grande parte das comunidades, há um fato a ser considerado: são os indivíduos mais velhos que ainda portam as informações capazes de serem catalogadas. Em algumas aldeias, por exemplo, o domínio das variantes linguísticas se restringem aos mais velhos. Os jovens, em razão do maior contato com as mídias, em especial a televisão, e com a língua portuguesa, como observa a linguista e antropóloga Bruna Franchetto, não têm o mesmo envolvimento com o idioma de origem.

''Os matipu e nahukwa, do Alto Xingu, são falantes plenos das suas línguas nativas. Elas são usadas no dia a dia em todos os domínios e contextos. Não apresentam sinais de enfraquecimento, mas outros se percebem claramente na transmissão geracional de tradições.
Conhecimentos que são veiculados e transmitidos exclusivamente na língua nativa. Isso, sobretudo, caracteriza as gerações mais novas que são mais atraídas pelo mundo das cidades '', diz a antropóloga, que coordenou o projeto realizado com esses índios.

Afro-brasileiros. Característica semelhante é percebida com as variantes de origem afro- brasileira, que, se hoje existem, é em razão de algumas palavras que foram incorporadas ao vocabulário português. Investigando a população que vive em duas ruas, Tabatinga e Cruz do Monte, em Bom Despacho, de Minas Gerais, a pesquisadora Margarida Petter, do Departamento de Linguística da USP, confirma:

''No Brasil, não há nenhuma comunidade que fala alguma língua africana, nem mesmo nas comunidades remanescentes de quilombos. O que nós temos são casos como em Bom Despacho, em que há a manutenção de algumas palavras de origem africana que a comunidade usa como uma marca de identidade''.

Ela afirma que parte das palavras foram identificadas como proveniente do grupo banto, que são faladas em Angola e Moçambique. E hoje, quem conhece algumas das expressões, visíveis no emprego de nomes de estabelecimentos da cidade, diz que são gírias.

 

 

 
 

 

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